No Maranhão é tão perigoso ser jornalista quanto na Somália
O jornalista e blogueiro Décio Sá foi morto em 2012 em um bar na Avenida Litorânea
Segundo dados do Comitê de Proteção aos Jornalistas (CPJ), uma ONG internacional, a Somália – onde um ou mais jornalistas foram assassinados por ano na última década e o Governo se mostra incapaz para solucionar estes crimes – é o lugar mais perigoso do mundo para se exercer a profissão, incluindo blogueiros e colunistas.
Estes números foram apresentados no dia 2 deste mês em assembleia geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e a Síria não foi incluída porque está em guerra. Vendo estes números, é assustador pensar que nas duas últimas semanas dois blogueiros foram assinados no interior do Maranhão. O caso mais famoso no Estado é o do jornalista Décio Sá, morto em um bar, em 2012, na Avenida Litorânea.
Enquanto a Superintendência de Homicídios e Proteção a Pessoa (SHPP), órgão vinculado a Secretaria de Segurança Pública do Estado, investiga os crimes, jornalistas e blogueiros, principalmente os que escrevem sobre política, convivem com o medo e constantes ameaças. No último sábado (21), Orislandio Timóteo Araújo, o Roberto Lano, foi assassinado a tiros na cidade de Buriticupu (a 407 quilômetros de São Luís).
Blogueiros Ítalo Diniz e Roberto Lano
O delegado titular da Superintendência Estadual de Investigações Criminais (Seic), Thiago Bardal, acredita que esses assassinatos estão diretamente ligados a crimes políticos. “Estes crimes são para intimidar, com certeza. Como a polícia não tem bola de cristal, nós iniciamos investigações após denúncias. E como a polícia do Maranhão vem cada vez mais fechando o cerco contra criminosos, principalmente nas cidades do interior, estes crimes começaram a aumentar”, disse.
Ameaças, medo e descaso
Editor de política de O Estado e também blogueiro, o jornalista Marco Aurélio D’Eça acredita que quem trabalha com blog acaba despertando ainda mais ódio, até de autoridades como a polícia e o poder judiciário. “Agente se sente ameaçado o tempo inteiro. Há insinuações e intimidações. O problema principal, ao meu ver, é que blogueiros são vistos com forte antipatia pelas autoridades. A polícia e o judiciário nos enxerga com raiva. Por isso, vemos certo descaso nas apurações destes crimes”, asseverou.
Jornalista Décio SáCaso Décio Sá
Em São Luís, o caso mais famoso é o do blogueiro Décio Sá, que foi assassinado no 23 de abril de 2012, na Avenida Litorânea, com vários tiros. Até hoje, apenas o assassino confesso, Jhonatan de Sousa Silva, e um comparsa foram julgados e condenados. Os suspeitos de serem os mandantes do crime seguem presos, mas ainda não foram condenados.
Dados da pesquisa do CPJ
– Aproximadamente 96 % das vítimas são jornalistas locais. A maioria informava sobre a política e a corrupção em seus países natais.
– As ameaças frequentemente antecedem os homicídios. Em ao menos quatro em cada 10 assassinatos de jornalistas, as vítimas haviam denunciado ameaças, que quase nunca são investigadas pelas autoridades.
– Grupos políticos, entre eles facções armadas, são suspeitos de cometer 46% dos casos de assassinato, um aumento de 6% em relação ao índice de 2014. Funcionários governamentais e militares são considerados os principais suspeitos em quase 25% dos casos.
– Em apenas 2% dos casos os autores intelectuais foram apresentados e processados.
Fonte: Imirante.
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